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De Goiânia a Buenos Aires: Uma Super Aventura num Chevrolet Monza Barcelona 92

Hoje eu tenho uma história daquelas para contar: uma aventura sobre rodas. Mas antes, deixa eu apresentar a outra metade dessa trama — a minha parceira de todas as horas, minha esposa Talita. Juntos, com aquele espírito de quem não tem juízo e um mapa em mãos (sim, o celular conta como mapa), decidimos encarar uma loucura: viajar de Goiânia até Buenos Aires, na Argentina. Ah, e claro, voltar também. Porque todo filme de ação precisa de um final épico, não é?

Agora, faça o seguinte: feche os olhos e imagine um Buick Wildcat 65, aquele veoitão ronronando, pronto para atravessar fronteiras com estilo. Um sonho, né? Pois é, foi só um sonho mesmo. O Buick, com uma precisão cirúrgica, decidiu entrar em greve um dia antes da viagem. O radiador, talvez apavorado com as empanadas argentinas, estourou. Maldito radiador!

O que nos restou? Abandonar o glamour e apostar no fiel escudeiro: um Chevrolet Monza Barcelona 92. Ele não era um clássico tão vistoso quanto o Buick, mas compensava com robustez, conforto e, com um pouco de otimismo, a alma de um leão (ou de um gato mal-humorado, no mínimo).

Mas eu não sou bobo. Montei um verdadeiro arsenal de primeiros socorros para o Monza, digno de um mecânico de pit stop: bomba de combustível, bomba d’água, correia, flexível de freio, velas, cabos, lâmpadas, tampa de distribuidor... E isso é só a ponta do iceberg! Com tudo pronto, era hora de colocar o pé na estrada!

A primeira parada? Um adeus caloroso ao sabor autêntico da comida goiana no Caipirão, em Goiatuba-GO. Foi uma despedida quase religiosa — você sabe do que estou falando, né? — antes de rumar para Ribeirão Preto. E que lugar, meus amigos! Passamos na cervejaria Colorado, onde redefinimos o conceito de “saborear cerveja”. Provamos nada menos que oito tipos de chopes e saímos de lá com os passos mais leves e o coração mais cheio. Antes que alguém me acuse de imprudência, já aviso: NUNCA bebemos e dirigimos. Táxi e Uber foram nossos aliados naquela noite de degustação épica!

A jornada estava só começando, e nossa próxima parada foi Monte Verde, MG. Ah, Monte Verde… Com seu charme inigualável, nos envolveu em uma neblina digna de contos de fadas. Para deixar tudo ainda mais mágico, preparei uma surpresa especial para Talita no hotel: vinho, chocolates e outros mimos. Clima romântico? Com certeza. Talita ficou nas nuvens — valeu a dica, Thiagão! À noite, mesmo com a chuva, decidimos explorar a cidade. E confesso: fazia tanto tempo que eu não usava um guarda-chuva que quase esqueci como abri-lo.

Passamos por Registro-SP para trocar os pneus e logo chegamos a Blumenau-SC. Lá nos reencontramos com o grande Rafael Barouki e seu Dodge Charger que rugia pelas ruas como uma fera enjaulada. Ele nos levou em um tour pela cidade e nos preparou para o grande evento: a OktoberFest. Foi chope, dança, risadas e muito mais — tudo isso com a conveniência de estarmos hospedados praticamente ao lado da Vila Germânica. Também nos encontrados com nossos amigos de Brasília Arley e Karla, que vieram só pra nos acompanhar num techo. Vida boa!

Foi em Porto Alegre que nosso valente Monza começou a dar sinais de que não era tão invencível assim. Ao chegar no hotel, notamos uma mangueira furada. Sem muito o que fazer na hora, encostamos o carro e decidimos transformar o problema em oportunidade: uma noite incrível no The Raven, porque a vida é curta demais para não brindar os imprevistos. No dia seguinte, entrou em cena o herói do dia: o mecânico Paulo, da oficina Top Stop. A tal mangueira era um pesadelo para trocar — dessas que obrigam a desmontar meio mundo de coisa no cofre do motor. Agora, entendi porque o mecânico em Goiânia fez vista grossa.

Mas o Paulo era praticamente um ninja da mecânica e resolveu tudo em tempo recorde. Monza consertado, voltamos para a estrada, mas não sem antes almoçar no Bar do Beto. Gente, que carne! Parecia ter sido preparada por divindades. Descobri um novo lado de Porto Alegre que me deixou com vontade de voltar mais vezes.

Seguimos em direção a Picada Café-RS. Mas claro que não sem uma parada estratégica em Ivoti-RS. O motivo? Cachaça, meu amigo! Talvez você não saiba, mas ali tem umas das mais premiadas do Brasil. E com o Monza ronronando e o vento batendo no rosto, seguimos viagem cheios de expectativa.

Em Picada Café, a viagem começou a ganhar um tom mais internacional. Ali reencontramos nossos amigos Alberto e Lu, e tive a alegria de ver o pequeno Frederico, que pareceu ter crescido uns 20 centímetros desde a última vez que nos vimos. A noite foi calorosa, repleta de boas conversas e lembranças. Ah, e o presente que recebi do Alberto — um chaveiro Chevrolet — está comigo até hoje, pendurado na chave do Monza como um amuleto.

A Serra Gaúcha sempre me encanta, e Nova Petrópolis foi a próxima parada dessa odisseia. A cidade parecia ter saído de um postal alemão. Alberto nos levou a um singelo restaurante onde, para minha surpresa, os frequentadores se comunicavam em alemão. Era como estar na Europa, mas sem o jet lag.

Talita, com seu radar fashion sempre ligado, aproveitou para arrematar uma coleção de sapatos irresistíveis. Enquanto isso, eu redescobria o refrigerante Fruki, que me transportou direto para a infância, com aquele gosto nostálgico que me lembrou o bom e velho Baré. A viagem estava no auge, e o Monza seguia firme, como se sentisse o peso de carregar tantas boas histórias.

A travessia para Santa Maria foi recheada de sabores típicos, com destaque para o autêntico Xis-Gaúcho, servido em carrinhos de rua que sempre despertaram minha curiosidade. Devo dizer, não decepcionou! Com o apetite satisfeito, seguimos para Uruguaiana, onde a estrada foi tomada pela expectativa de cruzar a fronteira para a Argentina.

Ao entrar na terra dos hermanos, a primeira surpresa: a gasolina. Mais barata que no Brasil, parecia um sonho para qualquer motorista. Mas nem tudo são flores. A economia veio acompanhada de um desafio: uma escassez generalizada de combustível, graças ao frenesi de brasileiros e uruguaios cruzando a fronteira apenas para abastecer. Um caos organizado, no mínimo.

Seguimos para Concórdia, uma cidade encantadora à beira do Rio Uruguai. A beleza da paisagem nos conquistou, mas o rio, que transbordava ameaçadoramente, trouxe uma dose de apreensão à tranquilidade local. Ainda assim, foi uma pausa agradável antes do grande destino: Buenos Aires.

Chegar em Buenos Aires foi um marco para nossa jornada. A capital argentina, com seu charme vibrante e energia inigualável, nos recebeu de braços abertos. Mas, como não podia faltar uma pitada de drama, o Monza começou a emitir um barulho suspeito. Decidimos adotar a filosofia do “depois eu vejo isso” e explorar a cidade de táxi, porque problemas mecânicos podem esperar — empanadas, não.

Buenos Aires tinha de tudo: cultura, comida, vinho... E, falando em vinho, fizemos um estoque digno de enófilos profissionais. A cidade também nos proporcionou um reencontro em família: meu irmão Vinícius e minha cunhada Elaine se juntaram à festa. Juntos, desbravamos a famosa exposição AutoClasica. E que espetáculo! As máquinas clássicas nos transportaram a outra época. É considerada uma das maiores exposições de carros antigos da América Latina, e posso garantir que merece o título.

Quer conferir o que rolou na AutoClasica 2023? Dá uma olhada aqui: www.autoclasica.com/ac2023enfotos.

A imersão na cultura local foi outro ponto alto. Visitamos o estádio do Boca Juniors e fomos hipnotizados por um músico de rua que parecia ter saído de uma novela argentina. Ele tocava "Adios Nonino" com tanta maestria que me deixou boquiaberto. A cada esquina, Buenos Aires revelava mais do seu encanto, e nós aproveitamos cada segundo.

Se fosse em Goiânia, a chamariam de “Praça da Cirrose”. Mas em Buenos Aires, Plaza Serrano soa bem mais sofisticado, não? Foi lá que nos despedimos da cidade com uma última dose de seu charme boêmio. Infelizmente, como tudo que é bom, a aventura precisava chegar ao fim. Carregados de lembranças, vinhos e um Monza resmungando, nos preparamos para o trajeto de volta. O barulho misterioso do carro ainda era uma preocupação, mas decidimos encarar com cautela e otimismo. A estrada não perdoa, mas também recompensa os corajosos.

A viagem de volta começou cheia de peripécias. Quase ficamos sem gasolina em um dos trechos, cruzamos com outros entusiastas de carros clássicos e enfrentamos a fase mais contraditória da jornada: o retorno, com seus sentimentos mistos de querer chegar em casa, mas não querer que a aventura acabe.

Em Uruguaiana, fizemos nossa primeira parada para resolver o percalço do Monza: aquele barulho do retentor do rolamento da roda dianteira. Sorte a nossa que peças de Monza parecem cair do céu, porque conseguimos resolver o problema rapidamente. Agradeci internamente por não ser nada mais grave, mas a combinação de chuva e rios transbordando quase transformou nosso retorno em um remake de “Noé e sua Arca”.

Chegando em Ijuí, o Monza resolveu nos pregar mais uma peça: um dos selos do motor furou. Foi um daqueles momentos em que você quer rir e chorar ao mesmo tempo. Felizmente, estávamos próximos de uma oficina, e o Elias, da Elias Car, nos salvou com uma eficiência digna de Fórmula 1. A pausa inesperada nos permitiu descobrir que a cidade estava sediando uma exposição das etnias. Porém, a chuva nos fez trocar o evento pela cama do hotel. Sem arrependimentos.

Depois disso, a jornada seguiu sem grandes incidentes por Cascavel e São José do Rio Preto. No outro dia, finalmente ao cruzar a entrada de Goiânia, a alegria e o alívio de estar em casa foram indescritíveis. O porta-malas lotado, a traseira do carro quase encostando no chão e uma sensação de missão cumprida: foi assim que encerramos essa jornada. Foram 20 dias, aproximadamente 7.200 km, um Monza cheio de histórias (e compras) e um kit de primeiros socorros intocado — graças a Deus! Já sentíamos o chamado da estrada novamente, porque, no fim das contas, a aventura nunca termina. Ela só espera o próximo horizonte.

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